Alexandre E. Santo
03/08/2011
Parecia o filme “Missão Impossível”: a “Bloomberg TV” estampou na tela de todos os
seus programas um cronômetro, em contagem regressiva, para o acordo que elevaria o
teto da dívida americana, evitando o calote dos Estados Unidos. Só faltou aparecer o
Tom Cruise para desligar a bomba relógio…
Em seguida ao acerto bipartidário, o famoso economista Paul Krugman escreve artigo
criticando Obama e afirma que o acordo “empurrará o país para o padrão República de
Bananas”. Outros editoriais também fazem referência ao presidente americano como um
perdedor no episódio.
Ainda na linha hollywoodiana, penso que esses analistas entendam que Obama é
Anakin Skywalker e cedeu ao lado negro da força (Tea Party). Com todo respeito ao
prêmio Nobel de economia e aos demais analistas, peço vênia para discordar; Obama
não é Darth Vader!
Meus alunos – e os que me leem neste espaço – sabem que, desde 2006, critico o modo
de vida dos americanos. Várias vezes alertei que a combinação de juros baixos, bolhas
nos preços de ações e imóveis e endividamento excessivo levaria ao estado de coisas
atual. Mas, se é para encontrar culpados, Obama é réu primário.
Em minha visão, grande parte dessa situação americana tem origem no 11 de setembro
de 2001. Diante daquela catástrofe, o Fed, o banco central americano, derrubou os juros
e W. Bush partiu para uma política fiscal expansiva poucas vezes vista na história.
Aí começam efetivamente os problemas (a dupla Bush – Alan Greenspan), que
culminam na crise de 2008, das subprimes. Cabe lembrar que as agências de rating
davam aval aos CDOs e SIVs, responsáveis pela disseminação do risco, e têm sua
parcela de culpa.
É preciso entender, definitivamente, que o mundo mudou. A supremacia americana foi
contestada sob todas as óticas e os emergentes ganharam relevo na nova ordem mundial.
Todavia, os EUA não perderão o status de potência econômica e militar. Ainda possuem
o maior mercado consumidor do mundo e assim permanecerão por muito tempo. Sua
economia é ágil e produtiva e emitem a moeda reserva; enganam-se os que creem que
haverá uma débâcle americana irreversível.
Até as paredes da Nyse sabem que o acordo costurado traz um ônus: a recuperação
efetiva não virá tão cedo. A taxa de desemprego continuará elevada e as empresas terão
resultados menos interessantes, o que é ruim para a bolsa. Todavia, diferentemente do
que eu acreditava até poucas semanas, penso que o Fed irá promover com um novo
“QE3″, o que pode colaborar para uma recuperação do mercado acionário. Mas existe
outro ponto…
Na volta às aulas, um aluno me perguntou o que ocorrerá se os EUA perderem seu
AAA. Em minha visão, mesmo que as agências de rating cortem a nota para AA, ainda
assim acredito que a China, o Japão, o Brasil e tantos outros países endinheirados não
terão outra opção para alocar suas reservas, a não ser continuar comprados em
“treasuries”. Fariam o quê? Comprariam tudo em ouro, NTN-B e franco suíço?
Ademais, já compram, atualmente, com juro quase zero. Se houvesse um aumento na
percepção de risco, os preços dos títulos cairiam no curto prazo – juros sobem -, o que,
no médio prazo, atrairia novos compradores.
As bolsas no mundo inteiro respondem com mau humor a esses episódios, refletindo
temores de recuperação em U ou W, como, aliás, salientei várias vezes que era o mais
provável.
O fato é que nosso Ibovespa negocia com P/L 8,5 vezes e, num universo de 220 ações
que selecionei no banco de dados da Economática, quase 25% estão com preços
inferiores ao valor patrimonial, o que é incomum.
São dias difíceis os que vivemos e os investimentos, cada vez mais, precisam
vislumbrar o longo prazo. É de difícil compreensão que a bolsa brasileira esteja
negociando a preços de antes do “investment grade”, enquanto índices de outros países,
em situações menos vantajosas, apresentam quedas menores. Mais à frente ficará claro
que estava descontada em excesso. É preciso sangue-frio, por enquanto.
Por fim, o certo é que os efeitos sobre o lado real de um “default” americano poderiam
ser imprevisíveis. O acordo era necessário! Não haveria Luke Skywalker para combater
esse mal maior…
Alexandre Espirito Santo é economista da Way Investimentos, chefe de Finanças
da ESPM-RJ e professor do IBMEC-RJ
E-mail: aesanto@wayinvestimentos.com.br